“O Senhor se arrependeu”

Como foi possível Deus se arrepender de ter feito Saul rei (1Sm 15.35)? Será que então também preciso recear que Deus se arrependa de me ter tornado seu filho se eu pecar?

Resposta:

É fundamental constatarmos que Deus é imutável, onisciente e soberano. Nada o surpreende. Além disso, ele é a verdade e o amor em pessoa e também tem sentimentos e emoções. Assim, por um lado, as promessas de Deus permanecem irrevogáveis, já que ele não pode mentir. “Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa. Acaso ele fala e deixa de agir? Acaso promete e deixa de cumprir?” (Nm 23.19).

No entanto, com relação a cada indivíduo, a reação de Deus depende do comportamento daquela pessoa. Basta lembrar-se da humanidade antes do Dilúvio (Gn 6.7). Aquele povo vivia consciente e deliberadamente em pecado. No caso do rei Saul, ele buscou honra para si mesmo (1Sm 15.24-35) em vez de dar glória a Deus. Diante disso lemos que a reação de Deus diante do “não” humano foi que “o Senhor se arrependera”. Em todos esses eventos trata-se da reação de Deus ao comportamento humano. Deus participa emocionalmente das decisões das pessoas porque não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva (cf. Ez 33.11). Então, quando lemos que Deus se arrependeu, isso não significa que tenha mudado de opinião, mas é uma expressão da sua profunda tristeza e participação na decisão humana.

Isso fica muito claro no exemplo do rei Saul. Depois que ele decidiu se posicionar contra a palavra de Deus, lemos: “... o Senhor se arrependera de ter estabelecido Saul como rei de Israel”. Uma outra tradução seria: “O Senhor lamentou...” (NAA), o que revela a tristeza de Deus pela decisão errada de Saul. É claro que, assim, é possível alegar que Deus, em sua onisciência, terá previsto a decisão de Saul. Correto! Mas é justamente nisso que se revela o amor autêntico fundamentado na natureza de Deus. O verdadeiro amor ama de forma incondicional e indiferenciada – e sem premissas. Faz parte da natureza do amor esperar que ele seja retribuído voluntariamente. Assim, o amor presume a liberdade de decisão. De acordo com isso, Deus se dirige ao homem com seu amor e lhe concede sua bênção, além de bem-estar e a oferta da salvação. Todavia, assim como muitos fazem, também Saul se decidiu contra a oferta da graça de Deus, e por isso lemos então que Deus se “arrependeu” ou “lamentou”. Cada um de nós precisa assumir as consequências das suas decisões.

Samuel Rindlisbacher

Samuel Rindlisbacher é ancião da igreja da Chamada na Suíça e foi fundamental no desenvolvimento do grande ministério de jovens da mesma.

sumário Revista Chamada Setembro 2020

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