Cristianismo Intolerante

Dizem que o cristianismo é uma fé intolerante e que os evangélicos são ainda mais intolerantes.

Precisamos começar definindo o que é intolerância. Por muito tempo, tolerância era a qualidade de se respeitar alguém mesmo discordando de sua opinião ou conduta. Assim, o outro é respeitado por sua condição de ser humano e sua opinião pode e deve ser avaliada e considerada melhor ou pior que outras. Assim, apesar de todos terem o direito a uma opinião, nem toda opinião é igualmente válida.

Infelizmente, uma nova versão de tolerância tem sido proposta e praticada. Quando alguém discorda de minhas opiniões ou de minha conduta nesta versão, eu tenho o direito de me ofender e reagir até mesmo com palavra de ódio, pois o ato de discordar é considerado uma posição intolerante.

Como cristãos, discordamos de qualquer afirmação que diminua o valor intrínseco de um ser humano. Cremos que todo ser humano foi criado à imagem de Deus e, portanto, é dotado de uma dignidade essencial. Ao mesmo tempo, também afirmamos que existe verdade e mentira e que opiniões podem ser melhores e piores; assim, devemos avaliar opiniões e condutas quanto ao seu valor, mas não pessoas. Eu gostaria de indicar três conceitos básicos para abordar este tema: (1) a Grande Mentira, (2) a Grande Verdade e (3) o Grande Mandamento.

A Grande Mentira trata-se da antiga estratégia de Satanás de ocultar a verdade (que se origina em Deus) e apresentar uma alternativa “melhor”. Esse foi o teor de sua tentação a Adão e Eva. E continua até hoje. Quando Deus – que não só determina a verdade, mas é a Verdade fundamental (Jo 14.6) – faz uma afirmação, Satanás propõe um mentira que pareça muito melhor. Romanos 1.18 descreve isso: “Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça”.

A Grande Verdade trata-se do fato de que Deus é soberano e que ele mesmo providenciou uma solução para o problema do pecado: o sacrifício de Jesus. Paulo faz uma profunda descrição da pessoa de Cristo no primeiro capítulo de Colossenses. No versículo 22, lemos o que pode ser descrito como a essência da Grande Verdade: “Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação”.

Por fim, chegamos ao Grande Mandamento, que na verdade são dois. Somos chamados a amar a Deus e, portanto, acreditar que ele é a verdade e que aquilo que ele diz é verdadeiro. Ao afirmarmos isso, estamos necessariamente afirmando que tudo o que contradiz a Palavra de Deus é mentira e deve ser rejeitado. Ao mesmo tempo, somos chamados a amar as pessoas; assim, todo ato ou postura que promove ou age com ódio com relação a outros deve ser denunciado e condenado. Jesus nos fala com clareza destes mandamentos em Mateus 22.37-39: “‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’... E... ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’”.

O cristianismo não é intolerante, mas tem um compromisso com a verdade e, ao mesmo tempo, com amar pessoas. Quando – ao longo da história – um destes princípios foi negociado, o cristianismo deixou de ser bíblico.

Daniel Lima é doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary. Autor e preletor, exerce um ministério na formação e mentoreamento de pastores e líderes.

sumário Revista Chamada Novembro 2020

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